Caixa de Vidro: Relatos do Processo

Relatos dos intérpretes em relação ao processo de criação e aos workshops de 5 dias que tivemos ao longo desses 7 meses com Georgette Fadel, Jorge Garcia. Ari Buccioni, La Tintota e Zoom B. Fernando Oliveira – Workshop de luz com Ari Buccione + La Tintota + Jorge Garcia

Começamos o trabalho no workshop, pesquisa, com tipo de iluminação com foco nas cenas que já tinham  sido montadas a partir do primeiro Workshop (Georggete  Fadel ) e também de cenas que foram criadas no segundo momento a parti de improvisações de dança e teatro. Trabalhamos com luz fria, por exemplo:florescentes, LED..

Sempre pensado em uma iluminação em plano baixo e médio, foram descartadas a ideia  iluminação por cima, comum(teto). Depois foram feitos teste de projeção, com imagens e concepção  da  cenografia, latintota. A ideia foi usar essas projeções como iluminação e também criamos outras estruturas para a mesma, desde de janelas(esqueleto) cercadas por florescentes, LED como objeto de cena e iluminação em plano baixo.

O corpo também foi usado como suporte de iluminação em cena…dando movimento e dinâmica para cena e para luz. Processo criatiavo “Caixa de Vidro”  por Amanda Raimundo Mudança brusca De pouco pra cheio Cheio de ansiedade Cheio de incerteza Cheio de expectativa Esvaziando pouco a pouco Uma mistura de amor e ódio Momento delicado aquele Olhar pra dentro Cutucar feridas Abrí-las e revelá-las Ceder quase o tempo todo Abrir mão de ser sempre forte Potencializar a fraqueza Aceitar o frágil O olhar: Um tanto mais infantil Atento ao que parece nada Que fotografa partículas O coração: aberto e mais tranquilo Que sabe a hora Que espera a hora Que aprende Que controla e vigia as ações e reações O tempo é sábio Aos poucos se revela, me revela. Jerônimo Bittencourt – Jorge Garcia + La Tintota + Gerorgette + Ari Buccioni + Zoom B

1.       Jorge Garcia, La Tintota e Georgete,
A pesquisa para o trabalho começou de fato como adentramos no universo proposto pela Georgette nos 5 dias de workshop. Com um número grande de pessoas ( éramos mais de 20) a cia. pode trocar com gente de todos os lugares, não apenas bailarinos mas atores, circenses, etc. Essa troca trouxe muitas informações. Muitos dos personagens que existem no espetáculo surgiram desse primeiro trabalho. A Georgette propôs os exercícios teatrais clássicos, mas com uma condução visceral e profunda nos levou a lugares novos, trazendo a tonas um material que se desdobrou durante os 7 meses de processo, que se transformou a medida que o trabalho amadureceu, um material fundamental para o processo de criação, trazendo muitas imagens e um universo lúdico muito forte.
       Jorge Garcia, La Tintota e Ari
Desde o início sabíamos que a luz e a cenografia seria importante pro trabalho. Propomos uma caixa de vidro onde tudo é visto a todo momento, precisávamos criar então um cenário que pudesse se transformar de uma maneira ágil. A luz e a cenografia que foi experimentada durante o workshop reforçou ainda mais a ideia que tinhamos após o trabalho com a gerorgette. Com uma luz usada muitas vezes como a própria cenografia fomos descobrindo infinitas possibilidades para dialogar com o vasto mundo de possibilidades que já tinha aparecido até então. Esse workshop nos levou ainda mais em direção a esse universo imagético, a princípio mais forte do que a própria  dramaturgia do espetáculo. Assumimos um lugar onde as sensações visuais fossem mais importantes do que o entendimento do que acontecerá na Caixa de Vidro.
    Jorge Garcia, La Tintota e Zoom B
O pessoal do Zoom B nos trouxe um leque de infinitas possibilidades de projeção, imagens sem fim para dialogar com o espetáculo que a essa altura já estava bem desenhado. Novas ideias surgiram a partir desse trabalho, mas é na força das imagens que o Zoom B entrou no universo do espetáculo, deixando tudo mais rico e interessante;
Processo Criativo do Caixa de Vidro
Durante esses 7 meses de muito trabalho não foi apenas o lado artistico e profissional que cresceu, mas principalmente o lado emocional e pessoal. Experimentei durante esses 7 meses muitos estágios emocionais diferentes. estar bem para o processo esteve diretamente ligado com ter força pra crescer na vida. Lidar a todo momento com questões pessoais e artísticas ao mesmo tempo fez com que eu ficasse muito mais sensível a tudo. Me senti mais aberto e disponível para aprender com os outros, senti menos medo de crescer quando foi preciso e mais coragem de arriscar quando o trabalho pedia. Lidar com um processo de criação totalmente novo pra mim foi uma tarefa ao mesmo tempo difícil e muito prazerosa. Tive que descobrir e criar novas ferramentas para acessar o universo da cia. e descobrir como dialogar com tudo aquilo de novo. Fiquei satisfeito ao final do processo pois acho que o grupo criou um material interessante, fruto de muito trabalho e entrega. O trabalho está lindo. Vida longa Caixa de Vidro!

Fernando Martins – Workshop de Georgette Fadel + La Tintota + Jorge Garcia Georgette  promoveu uma abertura importante para iniciarmos o processo de criação da caixa de vidro . Acessamos lugares novos dentro de nossa condição artística que foi  utilizado durante o processo de criação. Exercícios que nos conduziram para fora de nossas próprias caixas e percebemos que estas não mais eram do que caixas de vidro que trazíamos em nos mesmos .Uma vez percebendo isso me senti pronto para iniciar o processo de criação junto com a j. Garcia .                                                                            O processo sem duvida muito produtivo do ponto de vista humano e artístico que deixa bem claro que Jorge Garcia promove um ambiente singular e proporciona para estes jovem artistas uma percepção clara de onde estamos no cenário da danca principalmente no Brasil . Mariana Molinos – Workshop  Zoom B + La Tintota + Jorge Garcia O workshop “Zoom B + La Tintota” ocorreu num momento em que o  trabalho já estava bastante estruturado. Partimos de questões importantes a respeito do sentido das cenas que já tinhamos, para que fizéssemos, quando necessário, o casamento destas com as projeções/mapping. Desenvolvemos as pesquisa/investigações: –                  Das cenas em que as projeções se fariam necessárias e o  modo  como  iriam se apresentar. –                  Da realização “ao vivo” de gravação e projeção de  algumas cenas, bem como o diálogo dos bailarinos com essa projeção. –                  Da interatividade através do som, usando a trilha que havíamos construído (volume, graves/agudos…) de modo a alterar/deformar as imagens que são projetadas e o diálogo dos bailarinos com estas imagens. –                  Dos conteúdos a serem projetados afim de propor a potencialização do ambiente desenvolvido no trabalho. Desta pesquisa desdobrou-se também a investigação do uso da projeção como uma “cor” compondo a iluminação e que, na “contra-luz” gera sombras que podem ser tratadas como conteúdos. –                  Das superfícies em que ocorreriam as projeções, e estudamos as possibilidades de descontruí-las, de as manusearmos, de criarmos novos planos através das projeções.                                                                                                                         Penso que o workshop permitiu o refinamento da construção do  ambiente que situa o trabalho, possibilitando  que  revisitássemos o  sentido das cenas, da composição, da escolha do figurino, das músicas, etc… O contato com todo o recurso tecnológico proposto  pelo “Zoom B + La Tintota”, ao mesmo tempo que levantou argumentos e novas possibilidades de criar com/através (só) de imagens, salientou a importância dos intérpretes, da busca por novas qualidades corporais, da expansão da compreensão de diálogo e de composição. Surgiu, deste  contato, a necessidade de um “novo intérprete”, que  se coloca diante dessas novas formas de diálogo. O workshop tirou a tecnologia do lugar de “ferramenta a serviço da arte” e nos permitiu vislumbra-la como componente, nesta  medida, estruturante e tão responsável pela comunicação da arte quanto qualquer outro elemento da composição. Mariza Virgolino – Workshop Zoom B + La Tintota + Jorge Garcia O workshop iniciou a partir do estudo de relações entre os materiais criativos que o grupo já estava trabalhando com projeções e mapping, propondo interatividade nas cenas. Propostas de imagens: Através de sensores acoplados aos computadores, pesquisamos imagens sensíveis à diferentes volumes, timbres e dinâmicas de sons e movimentos. Como exemplo, linhas que respondiam de diferentes maneiras em espessura e também em movimento. Projeções que lavam o espaço texturizando-o com cores, formas ou até imagens de figuras, ruas, pessoas, paisagens. Captação de imagens que seriam usadas sobrepostas (Como a idéia dos “Bustos Cruzados”) e como sombras, que feitas em tempo real ou previamente gravadas propunham interação com os bailarinos em cena. Da captação de imagens e da pesquisa de onde projetar surgiu o material que chamamos de “Túnel”, projeção de cores e outras texturas em tecido enquanto em primeiro plano está um ou mais bailarinos interagindo com tecido e imagens. O processo de investigação nesse workshop, diferentemente dos anteriores, veio como um refinamento para as idéias já levantadas e abordadas no trabalho. Nas cenas já estruturadas, ele trouxe um certo acabamento, pois surgiu como um acréscimo de ficção, mais um elemento no jogo visual entre o real e o imaginário. Propôs que a cena que acontece em tempo presente fosse deslocada pra um outro tempo/espaço através de cores, linhas e volumes. Martina Sarantopoulos – Georgette Fadel + La tin tota + Jorge Garcia  Este foi o primeiro workshop realizado pela Cia para o processo criativo do espetáculo Caixa de Vidro que se dividiram em duas propostas: Georgette Fadel trouxe para nós ferramentas para construção de um personagem e exercícios de experiênciar cenas que possibilitaram a troca com as 30 pessoas que estavam inscritas neste workshop e Jorge Garcia com o grupo Latin tota pensaram na propostas relacionadas entre o corpo e a camera. Para a construção do personagem Georgette pediu para trazermos os seguintes materiais: um texto que você se relacionasse afetivamente, que ela chamou de “Texto do coração” e, para construção do personagem, objetos cretinos, como lenços, casacos, sapatos ou o que você entendesse por isso. Jorge Garcia e grupo Latin tota espalharam cameras pelo espaço onde além de registrar o que já estava sendo feito no workshop da Georgette também, ao meu ver, trazia a idéia do Panóptico, proposto por Fucaut em seu livro Vigiar e Punir, em que a idéia principal é você ter uma relação onde é sempre vigiado. A intenção era também perceber como o corpo reage diferentemente quando é observado, assunto que se relaciona diretamente com o Espetáculo “Caixa de Virdro“. Segundo a análise de Foucault, é mais vantajoso para a economia vigiar do que punir, pois vigiar pessoas e mantê-las conscientes  desse processo é uma maneira para que estas não desobedeçam a ordem, as leis e nem ameacem o sistema de “normalidade”. A punição, além da execução da força bruta, gera custos em combates, resocialização e reeducação. Georgette desenvolveu o workshop de uma maneira que nos abriu um canal diferente a criação. A utilização da voz, a descoberta da suas máscaras, relatos pessoais, construção de um personagem avesso ao você é possibilitaram um caminho diferente do geralmente é realizado em dança contemporânea. O que me impressionou muito neste workshop foi a maneira como ela conseguia verbalizar e exemplificar corporalmente e o que gostaria que fizéssemos. Também se baseava em Deleuze e Artaud para apoiar suas idéias. Citarei alguns trechos desses pensadores, extraídos da Internet, para ilustrar pensamentos que ela nos colocava em reflexão. Para Artaud o teatro é “o lugar onde se refaz a vida”, depois de Rodez ele é essencialmente o lugar onde se refaz o corpo. O “corpo sem órgãos” é o nome deste corpo refeito e reorganizado que uma vez libertado de seus automatismos se abre para “dançar ao inverso”. “A questão que se coloca é de permitir que o teatro reencontre sua verdadeira linguagem, linguagem espacial, linguagem de gestos, de atitudes, de expressões e de mímica, linguagem de gritos e onomatopeias, linguagem sonora, onde todos os elementos objetivos se transformam em sinais, sejam visuais, sejam sonoros, mas que terão tanta importância intelectual e de significados sensíveis quanto a linguagem de palavras.” Para Deleuze: os encontros têm como objeto o signo, que se relaciona ao pensamento e a criação. “O que nos força a pensar o signo. O signo é o objeto de um encontro; mas é precisamente a contingência do encontro que garante a necessidade daquilo que ele faz pensar. O ato de pensar não decorre de uma simples possibilidade natural; ele é ao contrario, a única criação verdadeira. A criação é a gênese do ato de pensar no próprio pensamento”. Pensar é interpretar, dito de um outro modo, pensar é explicar, desenvolver, decifrar, traduzir signos. Depois desse bombardeio de informações e de pessoas diferente questionando e discutindo ideias e ações nos encontramos “a sós“com nosso grupo novamente, o que me deu um alívio para estabelecermos no grupo uma intimidade criativa. Cheios de material criativo e novos canais abertos começamos a desenvolver estruturas para o espetáculo. Carolina Sudati – Breve impressão sobre a experiência nos workshops de processo Caixa de Vidro:  Vejo que os três workshops poderiam caracterizar três etapas-chave do processo criativo do espetáculo:

  1. Jorge Garcia + La Tintota + Georgette Fadel: LEVANTAMENTO criativo geral, com entrada livre de informações, direcionada por pequenos estímulos, entre eles a sugestão do olhar sobre as obras do Itamar Assumpção. Durante o workshop, Georgette propôs algumas estruturas-base por onde os participantes passaram. Essas estruturas acabavam criando pequenas dramaturgias, e a ideia inicial era partir do realismo para depois subvertê-lo. Ao mesmo tempo, trabalhamos com o desenho de personagens, que eram montados a partir de uma combinação entre figurinos “cretinos”, textos que havíamos escolhidos com o coração e também a escolha de um local sagrado dentro da casa Capital 35 onde iriamos ensaiar esse monólogo. Georgette também alimentou o grupo com indicações de organização do material criativo, como o desafio de criar de uma forma diferente da que está dentro da zona de conforto de cada intérprete. Esses direcionamentos, mais do que criar uma unidade, possibilitaram diálogo entre os participantes do workshop. Esse foi o meu primeiro contato com a Cia. Na etapa seguinte, o Jorge Garcia foi estimulando o resgate de materiais que haviam sido levantados nessa etapa inicial.
  2. Jorge Garcia + LaTintota + Ari Buccioli: Percebo que esse momento do workshop de luz foi uma etapa onde pudemos realizar uma VISUALIZAÇÃO do que havíamos levantado até o momento. A experimentação pura dos elementos de iluminação deu espaço rapidamente à execução das cenas que estávamos trabalhando e que formavam um roteiro prévio do espetáculo. A transformação que a luz realizou com as cenas acabou mudando a potência de várias delas. Com a entrada da iluminação na cena pode-se experimentar o direcionamento do foco da cena pela luz, reestabelecendo prioridades. Nessa etapa também experimentamos as projeções como iluminação.
  3. Jorge Garcia + La Tintota + Zoom B: O último workshop foi muito ativo como um FILTRO de todo o material criativo já levantado. Como já havíamos entrado em contato com projeção nos dois workshops anteriores, após entender alguns recursos básicos de interatividade que poderiam ser utilizados em cena, apresentados pelos integrantes da Zoom B, partimos para a experimentação e escolha do que poderia funcionar melhor dentro da estrutura do espetáculo que já estava com um roteiro mais maduro.

Na minha opinião, o processo criativo com a sequência de workshops cresceu muito principalmente pela participação ativa do Jorge e do La Tintota. Os workshops ajudaram a sistemarizar e avançar em etapas, mas também foram momentos de respiro criativo onde estava mais aberto o espaço de entrada de novas informações. Além dos workshops outros recursos proporcionaram essa experiência. O processo criativo como um todo trabalha muito com convergência e divergência. Houve uma etapa de abertura de possibilidades e depois de um tempo, o processo de escolha e limpeza iniciou. Além dessas características visíveis há também o invisível, que é justamente o que permite que tudo isso seja possível. A generosidade dos integrantes é um dos fatores que modifica todo o processo e ajuda a criar um ambiente propício à criação. Em um espaço onde a escuta ao outro não existisse esse ritmo de trabalho seria pouco para permitir que o material criativo saísse do coração.

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